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Gato Pardo

Para quem conhece, vocês estão mais que vacinados. Vocês não conhecem isto? São maiores de idade? Trazem o vosso cartão de cidadão, boletim de vacinas e resgisto criminal? Não? Fantástico!!!

Gato Pardo

Para quem conhece, vocês estão mais que vacinados. Vocês não conhecem isto? São maiores de idade? Trazem o vosso cartão de cidadão, boletim de vacinas e resgisto criminal? Não? Fantástico!!!

A vida pode não ser como desejamos. Mas está longe de ser um poço sem fundo.

02.10.14publicado por Gato Pardo

Hoje lembrei-me de um dia em particular.

Fui almoçar com um amigo que tinha a sua empresa ali para os lados do Largo do Camões. Após o repasto, caminhávamos já meio alegres e decidimos sentarmo-nos ali mesmo nos degraus de uma igreja. Puxámos cada um do seu cigarro e observámos o que se passava ao nosso redor em silêncio.

As pessoas com a eterna pressa, o contra relógio da vida, os minutos das horas de almoço contadas.

- Achas que daqui a uns anos seremos assim? - perguntou ele.

- Assim como? - questionei.

- Reféns da vida ao invés de usufruirmos dela em pleno.

- Sim, suponho que ocasionalmente seremos assim. Seria bom vivermos 24 horas por dia em ritmo de cruzeiro mas não creio que isso seja viável. Não para gajos como nós.

- Não achas que já somos assim?

- Bem, de momento não. Afinal de contas, estamos sentados nos degraus de uma igreja a fumar e com um grau de alcoolémia significativo. Posso afirmar com alguma certeza que de momento não somos de todo reféns da vida.

- Ok, de momento somos mais capazes de fazer reféns as beatas que estão dentro da igreja do que somos reféns da vida. Mas, e quando passar a alcoolémia e acabar o tabaco?

- Aí tu vais voltar a gerir a tua empresa com o afinco que te conheço e eu vou ser o profissional que sou. A vida não é um arco íris com um pote de ouro no fim. Eu sei isso, tu sabes isso, todos eles sabem isso. - disse, enquanto apontava para as dezenas de pessoas que passavam à nossa frente, indiferentes a dois fulanos sentados à porta da igreja.

Seguiu-se um demorado silêncio.

- Sabes, por vezes gostava que tudo fosse diferente.

- Toda a gente gostava que alguma coisa fosse diferente. Dou-te um exemplo. Vês aquela senhora que ali vai? Possivelmente, ela também gostava que algo fosse diferente. Gostava que a valorizassem mais no seu local de trabalho, que não olhassem para ela como se fosse um agrafador. Se calhar gostava de por uma vez na vida chegar a casa a tempo e horas decentes. De que os filhos não a tratassem como uma estranha, que não a fizessem pensar onde terá ela errado. De ter o jantar feito à sua espera, para variar. De ter tempo para ler um livro. Ou apenas para respirar. Todos nós desejamos secretamente que algo, por muito mínimo que seja, fosse diferente.

- Mas não depende de nós mesmos mudarmos as coisas?

- Claro que sim. Podes escolher ficar aqui a tarde toda. Podes exercer o teu direito ao livre arbítrio. O que te impede?

- Bom senso. Não posso. Tenho demasiadas responsabilidades, pessoas que dependem de mim.

- Exacto. Nada te impede de dar uma de James Dean, agarrares no carro e desaparecer do mapa. Até acho que isso seja saudável desde que não percas a tua casa no processo, a tua empresa abra falência e vás parar à cadeia por motivos obscuros. O que se passa é que estás cansado. Precisas de um time out. Apenas isso.

- Talvez seja isso. Sinto-me refém da minha vida.

- Não vais começar a cantar o "Soltem os Prisioneiros" dos Delfins, pois não? Senão juro-te que te agrido aqui mesmo. E olha que eu já não estou nas boas graças de Deus há muitos anos...

Passaram-se 8 anos desde esse dia.

E não mudámos assim tanto. Ambos continuamos a desejar pouco secretamente (como qualquer outra pessoa) por um bungalow numa praia deserta algures no meio do nada. A única diferença é que passado este tempo todo, sabemos que não somos reféns da nossa vida mas apenas das nossas decisões. Há que aceitar de braços abertos as boas que tomamos e aprender as lições que as más nos ensinam. E continuar a fazer por mudar as coisas. Cerrar os dentes e ir à luta. O bungalow pode não estar lá mas se eu tiver um Black&Decker e tiver a sorte de apanhar uns madeiros de um qualquer navio do sec. XIV naufragado, já é um bom começo. Pelo menos, a praia, essa ninguém ma tira.

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